15/06/2019
O lugar do ainda recomenda (1)
Ontem deixamos os miúdos com uns bons amigos (obrigada Pedro e Vera) e fomos a Belgais ouvir um concerto com outros bons amigos (yo yo Isabel).
Apesar de aqui vivermos há quase quatro anos nunca lá tinhamos ido, o projeto da Maria João Pires tinha fechado quando cá chegámos e foi com muita alegria que ficamos a saber que tinha reaberto e que tinha um excelente programa de concertos.
O caminho da cá até lá durou cerca de 45 minutos, a maior parte dos quais este campos por onde podemos estender os olhos, ou aldeias nostálgicas com velhinhas à porta de casa a curtir o entardecer.
Quando lá chegamos ficámos surpreendidos com o bom gosto na recuperação do espaço e na organização do evento. Nada tinha sido deixado ao acaso. Os espectadores tinham sido convidados a aparecer várias horas antes do concerto para poderem comer qualquer coisa, ouvir um concerto de jazz ou, simplesmente, apreciar o entardecer junto das muitas alfazemas e oliveiras que ali foram plantadas. As muitas pessoas que apareceram transpiravam uma calma diferente, aquela calma de quem sabe que a vida sabe ser melhor perto da natureza.
A noite estava fresca e o concerto era ao ar livre. Como já nos tinham avisado por email viemos de casacos, mas havia mantas disponibilizadas, aquela atençãozinha que nos deixa a todos mais quentinhos por dentro.
Sentados no meio de uma praça de casas baixas de xisto com um palco com um grande piano, vimos aparecer uma Maria João Pires sorridente, transbordante de alegria. Um projeto antigo recuperado, a presença de tanta gente que a acarinha, e a confiança de ter para oferecer poesia em forma de música, com aqueles dedos naquele piano, naquele espaço.
Enquanto ouvia o concerto, deliciando-me com o som dos sapos e dos passarinhos que decidiam (rebeldes) acompanhar o piano e a flauta, dei por mim a pensar na beleza que a nossa espécie consegue produzir, música como esta, a invenção do piano e da flauta, e criação de espaços e momentos assim, e na beleza que tem o mundo (este) com os sapos, os passarinhos, onde a música é também parte da vida, e nas estrelas e na imensidão e na vida, que dançam à nossa volta e por dentro de nós, uma qualquer coreografia de que todos fazemos parte.
E é (também) para momentos destes que vale a pena nascer, sair de casa, metermo-nos à estrada.
Venham.
Maria João Pires' unique center for the study of the arts.